quinta-feira, abril 20, 2006

Incertezas

A graça da vida é a incerteza. A incerteza é uma imprudência gostosa de viver, mas que tem que ser encarada de frente como uma verdade absoluta e imutável. A incerteza é ter a chance e se permitir surpreender quando vc acha que tudo será igual ao que já viveu. Conviver com a incerteza é uma das coisas mais irrefutáveis da vida. Sou crente que não podemos gastar energia tentando dar certeza em tudo aquilo que tem vida própria, pensamentos próprios e experiências próprias. Não temos e jamais teremos o controle das ações do outro, seja ele quem for. Não podemos querer alguém que seja igual a nós, simplesmente pq isso não existe e nunca vai existir. É uma verdade absoluta. Não podemos querer alguém que tenha o mesmo (bom ou mau) gosto, a mesma atitude, a mesma tolerância, a mesma inteligência etc. Aliás, vc quer alguém diferente ou dois de vc? (se vc respondeu dois de vc, vai ser egoísta assim....)

Vemos muitos casais que, seja ele ou ela, gostariam que o outro fosse assim ou assado, baseando a crítica, muitas vezes, em características básicas que deveriam ser parecidas para o bom convívio entre duas pessoas. Nestes casos, e, portanto, mais uma vez, nos mostramos pouco inteligentes. Reclamamos de uma escolha amorosa que se deu justamente baseada em características antagônicas às nossas, e agora queremos mudar a nossa parceira a qualquer custo! Engraçado seria se nós pudéssemos mudar conforme a parceira quisesse: aí sim ela nos largaria! Ao passarmos a ser justamente como ela (acha que) deseja, o que nos faria parecido com ela, vem a indagação de como ela poderia gostar de alguém que fosse parecido com ela, se o sentimento amoroso se deu justamente por um antagonismo de características básicas, ou seja, se justamente ela só pode gostar de alguém que seja diferente dela? >>>Lembra-se sobre a história da auto-estima baixa? Ou seja, não gostamos muito do que somos e isso nos leva a admirar no outro aquilo que não possuímos, o que corresponde quase sempre às coisas mais importantes que definem um bom relacionamento.

Ao que me parece, este tipo de relação é bem comum, e quando me repito aqui dizendo que temos que pensar mais em como as relações acontecem, quero justamente que vcs busquem desmistificar que o amor aparece apenas por acaso. Conseguir entender cada vez melhor o que nos atrai talvez seja uma tarefa bastante interessante do ponto de vista do autoconhecimento. Buscar entender que no amor há muito mais engrenagens que se encaixam ou desencaixam do que apenas a mágica que costumamos aprender por aí.

Qual o sentido de uma escolha amorosa para depois por defeito na parceira? Quem será que está fazendo o papel de burro na história? Ou vc acha que é alguém (exclusivamente) que tem a responsabilidade de te fazer feliz? Ah, não adianta mudar de parceira se vc nunca entender realmente como vc funciona e quais as limitações que vc terá que enfrentar e acietar para conseguir ser mais tolerante com a vida e com as diferenças. Olhar pra dentro de si é o único caminho para entender-se como limitado à incerteza do mundo e das pessoas, cobrar menos e depender menos dos outros para buscar a felicidade.

PS: Comecei o texto querendo falar de uma coisa, mas depois o assunto tomou um rumo que não havia pensado antes. Eu me permiti a mudar a rota no meio do caminho. A vida é sempre incerta, queiramos ou não.

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