segunda-feira, abril 24, 2006

Achados e Perdidos

Se eu fosse um coelhinho

Se eu fosse um coelhinho queria ser um coelhinho que morasse numa casa que tivesse um monte de coisas para brincar.
Eu tenho nove anos, moro numa bonita casa e me casei com uma linda coelha.
Meu nome é Paulo e minha esposa coelha se chama Renata.
Meu vizinho tem novecentos e oitenta e seis filhotes e eu tenho novecentos e noventa e nove filhotes e um pra nascer.
_Amanhã nós vamos passear no sítio do teu tio, você quer ir?
_ Mas é claro pai que quero ir. Quero ir na piscina e te garanto que vou me divertir muito.
Passado um dia, chegou a hora de ir ao sítio. Para chegar lá temos que andar 107 km de carro.
Chegamos lá e até descarregar as coisas chegou a noite.
Quando chegou a noite nós fizemos um churrasco e eu me diverti muito.
Quando chegou a hora de vir embora, todos os coelhos ficaram tristes, mas temos que enfrentar a realidade.
Stefano Pashalidis – 1988. (9 anos)

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Reproduzi a redação acima conforme o original. Está num livro que contém as redações de todos os alunos de minha classe daquela época. Achei este livro fazendo uma limpeza no meu armário, jogando a maioria das coisas fora (este não jogarei). Percebi que muitas vezes guardamos coisas que não nos fará nenhuma diferença. Só ocupam espaço e dão uma falsa sensação de segurança e de valor. Jogando fora, depois de um dia vc não sente a menor diferença. E abre espaço para coisas novas em sua vida, afinal dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar.


Voltando a redação, algumas coisas existem. A Renata era a menina que eu gostava. Não sei dizer quem é Paulo, mas é provável que seja uma dissimulação para que não ficasse evidente o meu amor pela Renata. Renata era minha companheira de redação, a minha amiguinha de carteira. O primeiro amor e a primeira frustração também. Um dia teve um bailinho, aqueles de vassoura, sabe? Eu era o tímido, contido com meu amor por ela. Mas este dia tomei coragem e pedi pra dançar com ela, que negou. Foi o fim.


Num encontro proporcionado pelo Orkut (de todo o pessoal), eu a reencontrei. Contei a ela esta história, e ela, além de rir junto comigo, disse que não sabia de meu amor por ela e que se soubesse não teria negado. A bem da verdade, ela nem lembra deste meu convite. Percebo então que muitas vezes valorizamos as coisas de uma forma que não é real. Vivemos em criações próprias (mundinho) e corremos o risco de nos dar muito mal por não estar em sintonia com a realidade. Ligamos os pontos que nos satisfazem, mas esquecemos de ver o quão deles são reais. E aí, nos frustramos. Ruim é perceber que isso ainda acontece muitos anos depois.


Outra coisa, o lugar da viagem dos coelhinhos existe. É o sítio de meu tio, que fica há exatos 107 km de minha casa. A idéia dos 999 filhos eu não sei de onde veio. Os churrascos lá sempre são muito bons e com boa dose de diversão.


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