Achados e Perdidos
Se eu fosse um coelhinho queria ser um coelhinho que morasse numa casa que tivesse um monte de coisas para brincar.
Eu tenho nove anos, moro numa bonita casa e me casei com uma linda coelha.
Meu nome é Paulo e minha esposa coelha se chama Renata.
Meu vizinho tem novecentos e oitenta e seis filhotes e eu tenho novecentos e noventa e nove filhotes e um pra nascer.
_Amanhã nós vamos passear no sítio do teu tio, você quer ir?
_ Mas é claro pai que quero ir. Quero ir na piscina e te garanto que vou me divertir muito.
Passado um dia, chegou a hora de ir ao sítio. Para chegar lá temos que andar 107 km de carro.
Chegamos lá e até descarregar as coisas chegou a noite.
Quando chegou a noite nós fizemos um churrasco e eu me diverti muito.
Quando chegou a hora de vir embora, todos os coelhos ficaram tristes, mas temos que enfrentar a realidade.
Stefano Pashalidis – 1988. (9 anos)
Reproduzi a redação acima conforme o original. Está num livro que contém as redações de todos os alunos de minha classe daquela época. Achei este livro fazendo uma limpeza no meu armário, jogando a maioria das coisas fora (este não jogarei). Percebi que muitas vezes guardamos coisas que não nos fará nenhuma diferença. Só ocupam espaço e dão uma falsa sensação de segurança e de valor. Jogando fora, depois de um dia vc não sente a menor diferença. E abre espaço para coisas novas em sua vida, afinal dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar.
Voltando a redação, algumas coisas existem. A Renata era a menina que eu gostava. Não sei dizer quem é Paulo, mas é provável que seja uma dissimulação para que não ficasse evidente o meu amor pela Renata. Renata era minha companheira de redação, a minha amiguinha de carteira. O primeiro amor e a primeira frustração também. Um dia teve um bailinho, aqueles de vassoura, sabe? Eu era o tímido, contido com meu amor por ela. Mas este dia tomei coragem e pedi pra dançar com ela, que negou. Foi o fim.
Num encontro proporcionado pelo Orkut (de todo o pessoal), eu a reencontrei. Contei a ela esta história, e ela, além de rir junto comigo, disse que não sabia de meu amor por ela e que se soubesse não teria negado. A bem da verdade, ela nem lembra deste meu convite. Percebo então que muitas vezes valorizamos as coisas de uma forma que não é real. Vivemos em criações próprias (mundinho) e corremos o risco de nos dar muito mal por não estar em sintonia com a realidade. Ligamos os pontos que nos satisfazem, mas esquecemos de ver o quão deles são reais. E aí, nos frustramos. Ruim é perceber que isso ainda acontece muitos anos depois.
Outra coisa, o lugar da viagem dos coelhinhos existe. É o sítio de meu tio, que fica há exatos 107 km de minha casa. A idéia dos 999 filhos eu não sei de onde veio. Os churrascos lá sempre são muito bons e com boa dose de diversão.


0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial